quinta-feira, 30 de junho de 2011

POESIA: TERRA DE MINHA MÃE - Eugénio de Andrade


Dormindo no feno - Albert Anker (1831 - 1910)

«A minha relação com as terras baixas e interiores da Beira é materna, quero dizer: poética.A tão grande distância do tempo em que ali vivi os primeiros oito anos da minha vida, o rosto de minha mãe confunde-se com a cor doirada do restolho e daquela terra obscura onde emergem uns penedinhos com umas giestas á roda, e alguns sobreiros de passo largo a caminho doAlentejo. Mas também os olovais de muros baixos de pedra solta me chegam nas suas falas, as dela e as de toda essa gente de Póvoa de Atalaia, camponeses na sua quase totalidade; e quando o não eram, o seu ofício era ainda o de uma relação privilegiada com as coisas da terra: pedreiros, carpinteiros, ferreiros. Fora destes mesteres, o restante da população lavrava, semeava, sachava, colhia. Ou pastava o gado, e fabricava queijo, azeite, vinho, pão. Lembro-me do cheiro dos lagares, das queijeiras, do forno, da forja - eram cheiros que entravam pelas narinas como tantos outros, mas só esses se infiltraram no sangue e aí ficaram, depositados em sucessivas camadas, para sempre, como ficou ficou o aroma das estevas e do feno. E ainda o das folhas secas dos castanheiros, trazidos ás carradas e depositados ao lado do balcão - e eu já as esperava e precipitadamente atirava-me sobre o montão de folhagem, com restos ainda de verão de S. Martinho; outros corpos caíam, um até sobre o meu, quente, demasiado quente, a boca próxima da minha, um beijo quase; voltávamos a subir os degraus, e o prazer e os gritos repetiam-se, até que minha mãe chamava por mim; anoitecera, o avô já chegara, os tios também, toda a gente, por carreiros e quelhas de sombra, havia já regressado dos campos, o cheiro a coentros não tardaria a subir da panela. Ouvia a voz de minha mãe ralhar com doçura, enquanto me despia e mergulhava na selha; um porquinho, era o que eu era, um porquinho sem emenda - no dia seguinte regressaria ao montão de folhas, ou aos montes de feno, ou de palha, no canto da eira, tanto faz, porque todos serviam para nos escondermos uns dos outros, ou uns com os outros.»

(Eugénio de Andrade - in: Um olhar Português - Circulo de Leitores)

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Terno cuidado filial


Ceifando a erva. Imagem da net.

Cá em casa, decidimos fazer uma pequena horta, num pedaço de terra, junto ao rio. Demos início hoje de manhã á primeira etapa que é ceifar as ervas. Pegámos nas foicinhas, já gastas, de tanto manuseamento pelas mãos dos meus pais, e deitámos mãos á obra, eu e o Zé.
Eu, só precisei de lembrar o que fiz tantas vezes, na minha infância e juventude, enquanto o Zé foi a primeira vez que ceifou.
O sol estava quente, e o facto de termos de nos debruçar sobre a terra, para cortar as ervas, tornou o trabalho um tanto cansativo. Num certo momento, o Zé olhou para mim e disse-me : "Mãe, ceifa tu ali onde há sombra que eu ceifo aqui onde está o sol".Este terno cuidado filial deixou-me tão contente! Respondi-lhe: Está bem filho,então eu ceifo aqui onde há sombra.

terça-feira, 28 de junho de 2011

António Damásio - neurologista das emoções e da consciência


Professor Dr. António Damásio

«Radicou-se nos Estados Unidos em 1975 e aí desbravou caminho nas neurociências das funções superiores. É um dos cientistas mais proeminentes da actualidade na sua área.

Quando o júri do Prémio Pessoa anunciou em 1992 que as personalidades distinguidas nesse ano eram António Damásio e a mulher, Hanna, os seus nomes pouco diziam à maior parte dos portugueses. Mas, por essa altura, os dois neurocientistas portugueses, que estavam radicados nos Estados Unidos desde 1975, eram já bem conhecidos naquele país e, sobretudo, na comunidade científica internacional ligada às neurociências. Nesses quase 20 anos de vida e de trabalho fora do seu país, o casal Damásio já havia começado a desbravar caminho na investigação neurológica das funções superiores, como a linguagem, a memória e as emoções, e o papel pioneiro de Hanna Damásio nas tecnologias de imagiologia cerebral que estavam a desenvolver-se rapidamente mostrara-se decisivo nessa caminhada.

Das emoções aos sentimentos, e finalmente à possibilidade de estudo da consciência e do que nela se gera, como o juízo moral, a consciência social ou a criatividade e a sua experiência mais profunda e perene, que é a arte, tudo isto António Damásio convocou ao seu trabalho de investigação e de reflexão nas neurociências. E de tudo isso nos foi sucessivamente falando, na sua linguagem elegante e fluida - como a linguagem de um romance - nos seus livros.

Foi em 1975 que António Damásio partiu definitivamente para os Estados Unidos, mas o seu trabalho como neurocientista já se tinha iniciado muito antes, em Lisboa, no Centro Egas Moniz, no Hospital de Santa Maria, onde dirigiu o Laboratório da Linguagem e onde, juntamente com o neurocirurgião João Lobo Antunes, fez trabalho pioneiro com doentes de Parkinson. Juntos publicaram então artigos sobre esse trabalho. Conheciam-se bem desde os bancos da universidade.

"Na faculdade [de Medicina de Lisboa] já se distinguia pelos seus interesses culturais, que iam muito para lá da medicina. Gostava de cinema, de música, de pintura e escrevia. Era invulgarmente cosmopolita para a sua geração", recorda João Lobo Antunes, que com ele firmou então uma sólida amizade. "Eu era na época director do jornal Encontro, da JUC [Juventude Universitária Católica], que tinha bastante prestígio, e ele fazia crítica cinematográfica para lá."

Era já a escrita, dimensão essencial da sua vida, a par da investigação, dos doentes que o ajudaram a desvendar os segredos cerebrais das emoções e da consciência e, claro, da arte e da leitura e do exercício permanente da curiosidade, que está na base de tudo.

Em 1994, Damásio publicou o Erro de Descartes - Emoção, Razão e Cérebro Humano nos Estados Unidos (publicado em Portugal pela Europa-América, no ano seguinte), e o êxito global foi ime- diato. Foi considerado um dos dez livros do ano pelo New York Times . Damásio repetiu a proeza com a segunda obra, O Sentimento de Si, em 2001. Depois disso, escreveu mais dois livros, Ao Encontro de Espinosa (2003) e, no ano passado, O Livro da Consciência, no qual discute também, as implicações sociais e filo- sóficas das suas descobertas.

Distinguido com inúmeros prémios internacionais, entre os quais os prestigiados Príncipe da Astúrias, em 2005, e o Honda, da Honda Foundation, do Japão, em 2010, Damásio é talvez o mais proeminente neurocientista da actualidade e, certamente, o mais lido no mundo. Nesse sentido, é também o mais popular. Afável, e atento, mantém sempre em público, no entanto, um perfil discreto»

Filomena Alves

Artigo parcial
D.N. - Gente 18/6/2011

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Um poema de Fernando Guedes


O Poeta Fernando Guedes

NA MORTE DE UM POETA

Morreste sem um adeus aos teus irmãos,
Irmão Poeta,
quando a Montanha abraçava mais as suas árvores
e nasciam flores.

Agora as palavras não exprimem
quanto pesou aos teus amigos essa fuga
tão precipitada,
como se receasses que a eternidade acabasse
antes de a conheceres.
Agora todos os lenços são excessivamente pequenos
para acenar boa viagem á tua memória
e só na curva dos nossos olhos
se manifesta a saudade.

Irmão Poeta.

Fernando Guedes

(Fernando Guedes nasceu no porto em 1928.É um escritor e editor portugês que se dedicou á poesia, ás belas-artes e á história da cultura.)

domingo, 26 de junho de 2011

Porque hoje é Domingo (159)


Capela em Chaves

Então Ana se levantou, depois que comeram e beberam em Siló; e Eli, sacerdote, estava assentado numa cadeira, junto a um pilar do templo do SENHOR.

Ela, pois, com amargura de alma, orou ao SENHOR, e chorou abundantemente.

E fez um voto, dizendo: SENHOR dos Exércitos! Se benignamente atentares para a aflição da tua serva, e de mim te lembrares, e da tua serva não te esqueceres, mas à tua serva deres um filho homem, ao SENHOR o darei todos os dias da sua vida, e sobre a sua cabeça não passará navalha. ( I Livro de Samuel cap.1:9 a 12)

E sucedeu que, passado algum tempo, Ana concebeu, e deu à luz um filho, ao qual chamou Samuel; porque, dizia ela, o tenho pedido ao SENHOR.

E subiu aquele homem Elcana com toda a sua casa, a oferecer ao SENHOR o sacrifício anual e a cumprir o seu voto.

Porém Ana não subiu; mas disse a seu marido: Quando o menino for desmamado, então o levarei, para que apareça perante o SENHOR, e lá fique para sempre.

E Elcana, seu marido, lhe disse: Faze o que bem te parecer aos teus olhos; fica até que o desmames; então somente confirme o SENHOR a sua palavra. Assim ficou a mulher, e deu leite a seu filho, até que o desmamou.

E, havendo-o desmamado, tomou-o consigo, com três bezerros, e um efa de farinha, e um odre de vinho, e levou-o à casa do SENHOR, em Siló, e era o menino ainda muito criança.

E degolaram um bezerro, e trouxeram o menino a Eli.

E disse ela: Ah, meu senhor, viva a tua alma, meu senhor; eu sou aquela mulher que aqui esteve contigo, para orar ao SENHOR.

Por este menino orava eu; e o SENHOR atendeu à minha petição, que eu lhe tinha feito.

Por isso também ao SENHOR eu o entreguei, por todos os dias que viver, pois ao SENHOR foi pedido. E adorou ali ao SENHOR (I Livro de Samuel cap.1:20 a 29)

sábado, 25 de junho de 2011

"Mãe, senta-te aqui e contempla a obra."


Olhares - Fotografias online. Foto de Eurico José Cirilo.


Ele veio lá de dentro trazendo uma cadeira de jardim que colocou á sombra, na relva e, numa voz doce e repassada de ternura, disse-me: "Mãe, senta-te aqui e contempla a obra." Eu sentei-me, e sorrindo feliz, olhei as flores e os vegetais que tínhamos acabado de plantar no jardim da casa nova. Estava lindo, tudo muito lindo.
Olhei para cima e os meus olhos bateram num céu azul, tão azul, que custava até a fixar.Da minha alma brotou então um cântico de adoração e louvor, repleto de gratidão por as incontáveis e contínuas bençãos que o meu Senhor vai derramando sobre mim, sob as mais diversas formas, incluindo o carinho e a ternura dos filhos que Ele me deu,que são para mim uma fonte de inesgotável alegria.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

CORAÇÕES IGUAIS A FLORES


Fonte da imagem: dyaraujo.com.br/

AQUELES QUE TÊM
O DESEJO ARDENTE
DE SE IGUALAR Á BELEZA DAS FLORES
POSSUEM CORAÇÕES
QUE A ELAS SE ASSEMELHAM.

MOKITI OCADA