sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Pobre caracol!


O meu neto Gil é um amante de fotografia.
Comprou recentemente uma nova máquina fotográfica, já bastante evoluida, com a qual tira belas fotos..
Como bom "fotógrafo amador" que é, geralmente, sempre que sai de casa, leva a máquina consigo," para o que der e vier".
Há dias, fomos fazer a nossa caminhada do entardecer, e quando já voltávamos para casa, ele reparou num caracol, ou caracoleta, que se arrastava pelo chão com a casa ás costas.
Imediatamente escolheu o melhor ângulo para o fotografar.
Quando chegámos a casa e ele colocou as fotos no computador e foi visualizá-las, chamou por mim para ir ver qualquer coisa.
Então, como eu já vejo um pouco mal, ele ampliou a foto e mostrou-me uma quantidade de pequenos bichinhos pretos agarrados ao pobre caracol.
Eu que vejo caracóis desde pequenina... nunca tal tinha visto, e por isso fiquei espantada.
Tive uma pena imensa do caracol, pois muito provávelmente, os bichinhos não estariam "a fazer coisa boa"!.
A não ser, na melhor das hipóteses que estivessem apenas aproveitando a boleia!
Mas não, creio que não, e para onde eles iriam? Qual seria o seu destino?
Pobre caracol! Ainda se ao menos ele tivesse uma "mão ou uma pata" para se coçar... como fazem os gatos para expulsar as pulgas... mas não.. creio que ele não tinha mesmo como se livrar dos parasitas.

Coitado!

Se repararem bem na foto, vão ver que parece que o pobre está mesmo até com ar infeliz.

Para verem melhor os "bichinhos" cliquem em cima da foto e ampliem.
Nota: será que alguem me sabe explicar que bichinhos são estes e o que faziam ali?
Eu agradecia imenso.


quinta-feira, 6 de novembro de 2008

CARINHO - precisa-se


Aqui em casa há vários dicionários de português, desde o mais moderno ao mais antigo.
È curioso que o eu recorro quase sempre ao mais antigo que é da autoria de Fernando J. da Silva, editado pela Livraria Simões Lopes, no ano de 1955.Nele procurei o significado da palavra carinho, e encontrei o seguinte:

Carinho : Afago; meiguice; carícia; ternura; Amor; mimo; cuidado.
Tudo palavras lindas, que ao serem pronunciadas soam muito bem.
No entanto, creio que não me engano se disser que estas palavras, são cada menos escritas e menos pronunciadas á medida que a humanidade avança.Elas são palavras com VALOR, que quando postas em prática mais valiosas ainda se tornam.
Acontece que muitos dos valores considerados fundamentais e importantes, e que serviram de base á construção dos relacionamentos, das famílias e da sociedade, a pouco e pouco vão sendo rejeitados e deixados para trás, como imprestáveis.
Outros valores substituiram estes.
E por isso, os relacionamentos, as famílias e a sociedade, chegaram ao ponto que estão hoje, onde vale tudo, tudo serve para fazer mal ao outro, para o prejudicar, para o fazer sofrer, para o destruir se necessário.De vez em quando, algumas vozes se levantam a chamar a atenção para este gravíssimo problema, que poderá levar o mundo para situações dramáticas e terríveis, de onde poderá já não haver retorno;porém essas vozes não são ouvidas nem tidas em conta, e chega-se ao ponto de se zombar dos seus anunciadores.

CARINHO PRECISA-SE!

È urgente, e tão necessário como o pão para a boca.

Todos precisam de carinho!
Ninguem pode viver sem ele!
Podem disfarçar... mas serão infelizes.
O carinho ajuda a desenvolver e a valorizar a pessoa humana.Quando acarinhada e amada, ela desabrocha como um flor, e então, para alem de se sentir feliz e realizada, como pessoa humana, pode ainda ser uma benção para os outros e para a humanidade.

Tambem os animais precisam de carinho.
Dói o coração ao vê-los abandonados e maltratados vagueando pelas ruas, como que sorrindo para quem passa, suplicando que o adopte, que o queira.
A natureza, bela, criada por Deus, precisa de ser olhada e tratada com carinho.
Por não o ser... já se fizeram e continuam a fazer tantos estragos, que são uma lástima.

Hoje, proponho aqui neste cantinho, a todos os que aqui vierem, para partir-mos para UMA CAMPANHA de valorização e divulgação do CARINHO!

E para começar-mos bem...que sejamos os primeiros a pô-lo em prática.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

A avó do Presidente Barack Obama


Na foto: Barack Obama com os avós maternos

Barack Obama é o 44º Presidente dos Estados Unidos da América.

Ao ler o texto em baixo, acerca da morte da avó materna de Barack Obama, apercebi-me da enorme, e fundamental importância desta avó, na vida deste grande homem.

Ele disse dela:"Ela era a pedra angular da nossa família."
"A nossa dívida para com ela, não tem limites."

Meditei sobre isto, e concluí que O Deus - Criador, na sua imensa sabedoria e amor, ao criar a mulher, dotou-a desta capacidade enorme de amar, de se dar, de se anular a si própria em favor dos outros, de perdoar, de se alegrar com as vitórias dos seus familares, de ser exemplo, e depois... partir alegre e feliz, ciente de que cumpriu a sua missão, e deixou uma doce memória e uma inesquecível lembrança na vida e coração daqueles que Deus lhe deu como família.

A morte da avó de Barack Obama

«A avó de Barack Obama, Madelyn Dunham, morreu na véspera da eleições Americanas, no Havai. Antes de sucumbir, durante o sono, a um cancro, a senhora votou pela internet, antes ainda da abertura das mesas eleitorais. O voto vai contar.
Kevin Cronin, que chefia as eleições no Havai, já garantiu que o voto de Madelyn Dunham vai ser contabilizado. A avó de Obama, acamada, votou por correspondência, informaram as autoridades. E, esse voto, singular e único, será contabilizado como todos os outros votos feitos por correspondência, dado que Madelyn Dunham está viva à altura em que o voto foi confirmado.
Amanhã, cerca de seis horas após o fecho das urnas em território continental americano, quando fecharem as mesas de voto no Havai, o voto de Madelyn Dunham simbolizará mais do que apenas um voto em Obama.
No último comício da campanha, o candidato democrata à presidência dos EUA comunicou a notícia da morte da avó aos milhares de apoiantes que o acompanharam em Chicago, estado de Illinois, do qual é Senador.
"É com grande tristeza que anunciamos que a nossa avó Madelyn Dunham se extinguiu em paz depois de ter lutado contra um cancro", declarou Obama num comunicado conjunto com a irmã, Maya Soetoro-Ng. "Ela era a pedra angular da nossa família", acrescentam o candidato e a irmã.
"Ela era a pessoa que nos encorajou e nos permitiu realizar-nos", prosseguiram. "Ela estava orgulhosa dos seus netos e bisnetos e deixou este mundo sabendo que a sua obra sobre todos nós é significativa e duradoura. A nossa dívida para com ela não tem limites", disseram.
O mês passado, Obama interrompeu a campanha eleitoral durante um dia e meio para se deslocar ao Havai, para estar à cabeceira da avó materna, que ajudou a criar o jovem Barack Obama depois da morte da mãe, vítima de cancro.
A mãe e avós maternos de Obama são brancos originários do Kansas, centro dos Estados Unidos, mas Obama, actualmente com 47 anos, passou grande parte da infância no Estado norte-americano do Havai, arquipélago no Oceano Pacífico.
"Quero ter a certeza de que não cometo o mesmo erro duas vezes", afirmou Obama, em entrevista difundida recentemente pela televisão CBS, numa alusão à mãe, vítima de cancro, que morreu aos 53 anos, antes de Obama a poder ver uma última vez.»

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Estados Unidos da América


Os olhos do mundo estão hoje colocados nos Estados Unidos da América.
O que acontecer hoje ali, terá influência nos quatro cantos da Terra.
Por isso é preciso que seja escolhido o homem certo.
Sejamos solidários.
Oremos hoje pela América, intercedendo, para que seja o Deus Poderoso, Senhor do céu e da terra, a dirigir o voto de cada um dos americanos.

QUE DEUS ABENÇOE A AMÈRICA.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O Cavador - Poeta - Cantor - José Fernandes Badajoz






Ontem, como habitualmente faço, fui á Casa da Cultura de Mira-Sintra, assistir a um concerto apresentado pela Orquestra Ligeira da Sociedade Recreativa e Musical, de Almoçageme - Sintra.
Fiquei impressionada com a beleza da letra e da música de uma canção,apresentada por um dos membros do grupo.
Desconhecia-a por completo, nunca a tinha ouvido cantar.
No final do espectáculo, dirigi- me ao cantor e depois de o felicitar, perguntei-lhe se acaso tinha uma letra que me pudesse ceder, porque eu tinha gostado muito dela.
Com pena, disse-me que não tinha, mas passou então a explicar-me que ela era da autoria de um homem chamado José Fernandes Badajoz, o poeta - cantor - cavador do Mucifal, que é uma aldeia pertinho de Sintra.
Contou-me que foi um homem extraordinário, com uma voz belíssima e um dom muito especial para apoesia e a música.


Convidado por José de Oliveira Cosme, de Almoçageme, tambem muito célebre, que era um excelente músico e escritor, Badajoz, apresentou as suas músicas no Rádio -Clube - Português, durante cinco anos, e percorreu toda a zona de Sintra e muitos recantos de Portugal, cantanto e encantando todos os que o ouviam.
Em pouco tempo tornou-se bastante conhecido e a sua obra e a sua voz grangearam-lhe admiração e estima.
Quisesse ele, e tinha tido uma óptima possibilidade de singrar nesta área do espectáculo.No entanto, ele preferiu trocar essa carreira promissora, pela sua amada aldeia e pela enxada com que trabalhava a terra.
Pesquisei ma net acerca sa sua pessoa e encontrei bastantes referências a este Artista - cavador.
Fiquei encantada.
Não resisto a publicar aqui neste cantinho, o que encontrei a seu respeito.
A ideia, é não só prestar-lhe uma singela homenagem, como tambem torná-lo conhecido, assim como a sua obra, que tanto significado tem para os naturais do Mucifal e tambem para aqueles que residem nas terrinhass á volta de Sintra.


«Não tendo conhecido José Fernandes Badajoz, é difícil escrever alguma coisa que não fosse já dita, ou escrita sobre este filho ilustre da freguesia de Colares ,ainda hoje tão lembrado com saudade pelas gentes do Mucifal. José Fernandes possuidor de uma óptima voz, interpretava os seus poemas e as sua músicas, animando festas de beneficência , carnavais, e as marchas populares desta freguesia. Abandonando uma carreira musical que poderia ter-lhe trazido muito sucesso, preferindo manter-se ligado à sua terra.

Em artigo publicado na revista "Sintra Regional", Graça Pedroso ,que o conheceu pessoalmente presta um Tributo ao Poeta e Cavador, “De uma coerência invulgar, foste herói como poucos quando, já estrela da rádio e admirado pelos maiores artistas da época, optaste pela família e pelas tuas raízes, trocando o conforto e as mordomias dessa outra vida pela simplicidade da tua vida e da nossa comunidade.”
Tendo um LP gravado , que na contracapa responde à pergunta –Quem é José Fernandes?” (...)José Fernandes deixa-se de tal modo seduzir pelo campo que nem a ARTE com todo o fascínio, consegue arrancá-lo do seu Mucifal.Dá-se integralmente ao campo e à sua magia.Nos seus poemas que os abriga e os embala como a mãe, presente sempre a vida simples, pura e e honrada do CAVADOR, o seu primeiro POEMA, o seu POEMA de sempre, a sua Bandeira, o seu Hino, o seu Sol até ao último dia.”»

O Cavador

Mal que rompe a madrugada
Ponho ao ombro a minha enchada
Vou para o campo trbalhar.
È assim a minha vida
Porque gosto desta lida
Nunca a poderei deixar.
Quem no campo labutar
È que sabe avaliar
O que custa a nossa arte
Quem o trabalho conhece
Vê que o cavador merece
Elogio em toda a parte.

Refrão

O pobre trabalhador
Passa a vida atribulada
Desde manhã ao sol - pôr
A puxar pela enchada.
Sempre, sempre a trabalhar
È assim nosso viver
Se não podemos ganhar
Já não temos que comer.

Há quem diga pr supor
Que o pobre trabalhador
È rude e não sabe nada
Que é uma ideia embrutecida
Pois somente leva a vida
A puxar pela enchada.
Sabemos compreender
Que é bonito saber ler
E que é bom ser educado
A sorte é que nos ilude
Mas não tem nada ser rude
Para ser homem honrado.

Letra: José Fernandes Badajoz
Música: Duarte Machado



domingo, 2 de novembro de 2008

Porque hoje é Domingo (29)


Porque em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados; perseguidos mas não desamparados; abatidos mas não destruidos; trazendo sempre, por toda a parte, a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste, tambem nos nossos corpos (II Epístola de S. paulo aos Coríntios 4:8 a 10)
Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz, para nós um peso eterno de glória mui excelente;não atentando nós nas coisas que se vêm, porque as que se vêm são temporais, e as que se não vêm são eternas.
Porque sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna, nos cèus. (II Epístola de S. Paulo aos Coríntios 4:17 a cap. 5:1)

«Não te prendas aos valores materias (vers. 17)

Não te deixes encantar por coisas que não têm valor real, permanente. Procura olhar para além do que é efénero, para compreenderes como o Senhor trabalha na tua vida e o que Ele quer de ti.
Não permitas que a "imagem" do mundo te impeça de veres o que verdadeiramente importa, os valores eternos do Reino de Deus e da sua justiça.

Não podemos escapar á marcha dos anos!
Reconhecemos isso quando as letras do jornal são cada vez mais pequeninas; quando precisamos de estar sempre a pedir ás pessoas para repetirem o que disseram; quando na rua temos que acompanhar alguem que parece correr em vez de andar...
È verdade: já não somos os mesmos de tempos atrás!
Entretanto, o apóstolo Paulo lembra-nos que, embora vamos enfraquecendo físicamente, algo, em nós, funciona no sentido inverso: estamos a ser renovados, dia a dia pela graça e poder de Deus.

Quando errares, fixa o teu olhar em Cristo em vez de inventares desculpas.
Se foi nos negócios que falháste, coloca Jesus na direcção da tua empresa: se tens problemas de relacionamento, faz de Jesus o teu Amigo e Conselheiro. se o teu casamento vai mal, submete-te ao Senhor e torna-O o alicerce do teu lar.»

(extraído da Revista -Lições da Escola Bíblica Dominical da A.I.B P.)

sábado, 1 de novembro de 2008

O PoetaTeixeira de Pascoaes nasceu há 131 anos


O Poeta Teixeira de Pascoaes nasceu faz amanhã 131 anos (2/11/1877).
Descobri-o faz pouco tempo, e desde então elegi-o como meu poeta preferido, ao lado de Miguel Torga.
Não o publico aqui com mais frequência, dada a extensão dos seus poemas.
Hoje mesmo publicarei aqui apenas uma pequena parte de um famoso poema -A Elegia da Solidão, a fim de que os amigos que por aqui passarem, possam conhecer um pouco mais deste homem que marcou a história da Poesia Portuguesa.


Teixeira de Pascoaes

A 2 de Novembro de 1877, nasceu em Amarante Teixeira de Pascoaes.
Dois anos mais tarde, a família muda-se para a Casa de Pascoaes situada na freguesia de São João de Gatão, nos arredores de Amarante. Será neste solar setecentista que Teixeira de Pascoaes habitará a maior parte da sua vida e onde virá a morrer, a 14 de Dezembro de 1952.
As primeiras colaborações poéticas de Pascoaes, no jornal A Flor do Tâmega, datam de 1894 e Embryões, o seu primeiro livro e o único que será repudiado pelo autor, é publicado um ano mais tarde, aos 18 anos.
Em 1896, Teixeira de Pascoaes matricula-se no curso de Direito, na Faculdade de Coimbra, publicando durante esses anos, entre outros livros, Belo, À Minha Alma, Sempre e Terra Proibida.
Em 1906, no Porto, Teixeira de Pascoaes começa a exercer advocacia, profissão de que se ocupa apenas até 1913, ano em que abandona a cidade e fixa definitivamente a sua residência em São João de Gatão. Durante os anos de vivência no Porto, Pascoaes havia publicado, por exemplo, Vida Etérea, Senhora da Noite e Marânus.
Os anos de 1912 a 1921 são marcados pela direcção da revista literária A Águia, órgão do movimento da Renascença Portuguesa, pela publicação do seu primeiro livro em prosa, Verbo Escuro, do ensaio A Arte de Ser Português, de O Bailado, entre outras obras. 1928, data de publicação de Livro de Memórias, marca a transição de Teixeira de Pascoaes da poesia para a prosa e o início de uma série de biografias: São Paulo (1934), São Jerónimo (1936), Napoleão (1940), O Penintente - Camilo Castelo Branco (1942) e Santo Agostinho (1945).

Em Portugal, a obra de Pascoaes é lida com entusiasmo e admiração pela elite intelectual da época, desde Pessoa a Sá-Carneiro, Mário Cesariny e Alexandre O’Neill, António Maria Lisboa e Eugénio de Andrade, Pedro Oom e Mário Henrique Leiria.
Durante este período muitas das obras de Pascoaes são dadas a conhecer a leitores estrangeiros, tornando-se o escritor português mais traduzido e sendo louvado por escritores como García Lorca e Unamuno.


- ELEGIA DA SOLIDÃO -

a Fernando Maristany

O incendio do sol-pôr exala um fumo rôxo
Que ás cousas vela a face...
A macerada flôr da solidão renasce;
O seu perfume é fria e branda magua,
Bruma que já foi agua...
Todo sombra e luar esvoaça o môcho;
Uma nuvem enorme, ao longe, no poente
Desvenda o coração que se deslumbra
E abraza intimamente...
O silencio a crescer, é onda que se espalha...
Sente-se vir o outomno; é já noitinha, orvalha...
Nos êrmos pinheiraes gemem as _noitibós_
E vultos de mulher, sumidos na penumbra,
Passam cantando, além, com lagrimas na voz...

Ó tristeza do mundo em tardes outomnaes!
Longinqua dôr beijando-nos o rôsto...
Crepusculo esfumado em intimo desgôsto,
Bôca da noite acêsa em frios ais...
Aparição soturna, vaga imagem
Do mêdo e do misterio...
Que solidão escura na paisagem!
Tem phantasmas e cruzes,
Tem ciprestes ao vento e moribundas luzes,
Como se fosse um grande cemiterio.

Olho em volta de mim, cheio de mêdo... Tudo
É morta indiferença, espectro mudo!
É o Verbo original arrefecido
Em fragaredos brutos convertido;
Extinto _Fiat Lux_, cadaver que fluctua
No ceu nocturno e fundo...
As almas que partiram d'este mundo
Voltam na luz da lua.
São phantasmas em neve amortalhados,
Eternamente tristes e calados...
São sonhos esvaidos, nevoa fria,
Perfis de fumo e de melancolia...
Vagas formas de imagem ilusoria
Que a lua merencoria
Molda em penumbra e cêra
Na noite transparente de chimera.

E todavia eu sinto
Um acordar de instinto,
Um palpitar de viva claridade
Em cada cousa obscura...
O aroma d'uma flôr quem sabe se é ternura?
A noite não será phantastica saudade?
A deusa que semeia estrelas no Infinito
E corôa de lagrimas divinas
A extatica tragedia das ruinas,
Toda em versos de marmore e granito?
Misteriosamente
Sobe da terra um sonho transcendente;
Emanação de mistica tristeza,
Como o fumo d'um lar
Que tem, junto do fogo, alminhas a rezar.

Mas, ai, a Natureza,
Reservada e offendida, afasta-se de nós!
E na sua mudez arrefecida
Congela a minha voz...
Um silencio mortal separa-me de tudo!
E como a sombra tragica da vida,
Vou pelo mundo além;
Enorme espectro mudo,
Monstruosa presença de ninguem!
Vivo sósinho e triste, assujeitado
Ao meu phantasma errante e desgraçado,
Em ermos de abandono;
Ermos de Portugal,
Onde a alma do sol divaga com o outomno
N'um sempiterno idilio sepulcral.

Sou nada, e quero ser!
Quero ser tudo, e eu! Quero viver
A vida misteriosa...
Interrogo o silencio e a noite rumorosa
De sombras e segredos...
Contemplo comovido os astros e os penedos,
E fico a ouvir as fontes n'um eterno
Queixume que ergue a voz durante o negro inverno!
Passo horas a aspirar o aroma d'uma flôr;
Sombra que eu vejo em pétalas de côr
Esparsas, ondeantes,
Nas virgens claridades madrugantes.
E a pura sensação que me domina,
É qual longinqua Apparição divina
Que me seduz e afaga...
E de estrela em estrela é alma que divaga...
Quantas vezes me sento á beira d'um abismo,
Sobre escarpados blócos;
E em mim perdido scismo...
E ouço apenas cair nos tenebrosos fundos,
As lagrimas de luz que vêm dos outros mundos
E a neve do silencio em negros flócos.

Absorvo-me na noite e no misterio;
Erro, ao luar, em êrmo cemiterio,
Sob as azas geladas do _nordeste_;
Interrogo na vala a sombra do cipreste
Rumorosa d'um funebre desgosto,
Com gestos espectraes ás horas do sol-posto...
E n'um doido, febril deslumbramento,
Vejo-me sepultado em pensamento
E durmo, durmo, durmo a Eternidade...

...