quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Tudo tem o seu tempo


Um velho castanheiro - imagem da net

Desde criança sempre fui ligeirinha a caminhar.
Recordo que perto da nossa casa havia um caminho de terra batida, ladeado de um lado e doutro por belas oliveiras. Era longo esse caminho.
Passávamos nele vezes sem conta durante o dia.
Lembro-me das corridas ao desafio entre mim e o meu irmão, um pouco mais novo do que eu.Eu ganhava muitas vezes.

Durante a vida inteira sempre "fui á frente"...
E sempre me incomodaram os que podem andar e ficam para trás, ainda hoje.
Porém, como dizia na sua sabedoria,a senhora mimha mãe... tudo tem o seu tempo!

No dia das últimas eleições fui votar bem cedinho, na companhia do filho João, do filho Zé, e da nora Joana.
Ao sairmos da escola, lugar de voto, eles caminharam apressados á minha frente, e eu, claro, tentei acompanhar o ritmo, mas, com os meus quase 69 anos, e com um problema respiratório, não foi fácil acompanhá-los... de tal modo, que ao sairmos o portão, nem sequer reparei num pequenino muro e avancei.O resultado é que tropecei e ia caindo...

Estou a tentar interiorizar esta verdade: Já não sou eu que vou á frente.
Agora começo a ficar para trás.
E eles, estão tão habituados a que eu vá á frente... que mantêm o ritmo e nem sequer reparam que eu vou ficando para trás.
Daqui em diante, vou ter que "pedir" a muita gente, incluindo os amigos, que por favor andem um pouco mais devagar para que eu os possa acompanhar.
Custa...
Pensando nisto,lembrei-me do livro do Eclesiastes, da minha mãe, e deste verdadeiro e belo poema, de Olavo Bilac.

As velhas árvores

Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores moças, mais amigas,
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...
O homem, a fera e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres da fome e de fadigas:
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.
Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo. Envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem,
Na glória de alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

(Olavo Bilac)

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Quando se é ainda pequenino...


Não é a Margarida - è uma imagem da net

A minha linda neta Margarida, que tem apenas três anos, veio com a família passar o fim de semana a nossa casa.
Se há coisa que ela gosta é de vir a casa da avó Viviana.
Ela e todos os outros netos.
Deliram!
E eu fico toda vaidosa, claro.

Estava sentada no sofá da sala, e como vestia uma camisola curtinha, reparou no seu umbigo e exclamou para todos ouvirem:

"Olha para o meu bigode!"

Ela queria dizer umbigo.
Na ânsia de aprender... ela troca as palavras.
As duas palavras não são nada parecidas, mas eu creio que o que a baralhou foi o "bi" que ambas têm.

Quando se é pequenino...

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Aquele homem


Imagem da net

O dia aproximava-se do fim.
Como habitualmente faço, fui caminhar um pouco, pois continuo a acreditar que o caminhar é um dos melhores exercícios físicos.
Convidei o meu filho Zé e ele acompanhou-me.
Fomos andando e conversando pois ambos apreciamos conversar.
Quando demos por nós, estávamos a chegar á estação de Mira-Sintra - Meleças.
Há ali um espaço excelente para caminhar, pois há largas faixas de rodagem com reduzido movimento, vários passeios, jardins, a Ribeira das Jardas e um belíssimo pinhal de centenários pinheiros mansos.
Ao caminharmos por um passeio no meio daquele espaço, apercebi-me da presença de um vulto, sentado de costas para nós, num murinho separador da faixa de rodagem mais á direita, que é a faixa mais usada por onde os carros entram e saem da estação.
Reparei nele e chamei a atenção do Zé, pelo simples facto de que vamos ali vezes sem conta e nunca vimos ninguém ali sentado.
Continuámos a andar até lá ao fundo e voltámos para trás.
Verificámos que o vulto permanecia imóvel no mesmo lugar.
Eu fiquei um pouco perplexa pois estava mesmo quase a anoitecer e tornava-se perigoso alguem estar ali naquele lugar á noite, pois a partir tde uma certa hora a estação e todo aquele espaço torna-se deserto e isolado.
Pensei: eu não posso ir-me embora sem ver o que se passa, pois poderá ser alguém que precise de ajuda.
O Zé ficou ali parado, e eu, suavemente, aproximei-me da pessoa em questão.Cheguei por trás dela e disse-lhe: Boa noite.
Ele não reagiu.
Disse-lhe novamente: Boa noite.
Ele então volveu a cabeça para o meu lado e olhou-me fixamente, sem proferir uma palavra.
Quando vi o seu rosto foi um choque terrível. Ele tinha a cara com várias feridas que sangravam, os lábios com golpes profundos que sangravam tambem, e um tumor negro na face direita, que lhe repuxava a pele e lhe dava um aspecto muito estranho.
Procurei conter -me e parecer o mais natural possível e disse-lhe:
Olhe que está quase a anoitecer e é melhor o senhor ir andando, porque rápidamente vai ficar escuro e o senhor não pode ficar aqui sòsinho neste lugar isolado.
Ele continuou a olhar-me, com um olhar profundamente triste, levou as mãos ao rosto e quando as retirou reparou que elas tinham sangue e isso deixou-o perturbado.
Sem dizer palavra, apoiou a testa nas mãos e assim ficou.
Eu voltei a dizer-lhe que estava a anoitecer e que ele não podia ficar ali. Voltou a fixar-me.
Eu perguntei-lhe: o senhor precisa de ajuda? Onde é que mora?
E ele disse qualquer coisa imperceptível, pois a sua voz era tão débil e o seu corpo estava tão magro e tão frágil, que depressa percebi que a voz seria assim mesmo.
Vestia um blusão de bombazina(num dia de muito calor) e as calças tinham lustro de tanta sugidade.
Mas o Homem tinha um ar fino, nobre, distinto.
Os poucos cabelos grisalhos que tinha estavam penteados, mas muito sujos.

Como ele não tomava uma decisão, eu pensei:
se ele se mantiver aqui eu telefono para a policia para o virem buscar e levar para algum lugar, não sei qual.
Mas, enquanto eu pensava isto, ele muito devagarinho levantou-se, pegou nos dois sacos de plástico, que pareciam pesados, que tinha ao lado, e começou a caminhar no sentido da saída da estação, ou seja, dirijiu-se para os lados da Tala.
Não voltou a olhar-me.
Quando se levantou perguntei-lhe novamente se precisava de ajuda, mas ele nada disse.
Eu fiquei ali parada, longo tempo, a vê-lo caminhar e a segui-lo com o olhar.
Não ia por o passeio, mas por a beirinha da faixa de rodagem, sempre a direito; e lá foi sem nunca olhar para trás, até eu o perder de vista.
O Zé, ali ao lado, assistiu a tudo isto, sem palavras. Vi que estava impressionado.
Impressionada e muito triste, tambem eu fiquei.
Não me sentia muito bem por não o ter acompanhado, e dise isso ao Zé, mas ele disse-me que eu deveria respeitar aquele homem, pois nada sabíamos a seu respeito.
Eu pensei que poderia muito bem ser uma daquelas pessoas das quais se escreve no jornal: "Desapareceu da sua residência..."
O Zè lembrou-me que talvez fosse isso sim, mas que talvez ele desaparecesse de casa por opção própria, por escolha, por ter talvez uma família que não o amasse e o aceitasse. Quem sabe?
Cá para mim, confesso que não fiquei de bem com a minha consciência, pois sinto que o deveria ter acompanhado sim, e ver onde morava, e se precisava de algum apoio ou alguma orientação médica ou social.
Não o quis fazer para não me intrometer na vida, e privacidade, e direitos dele.
Mas será que fiz bem?
Em casa orei por ele, e chorei, chorei muito, porque creio que nenhum ser humano, em nenhum lugar do mundo, deve viver na situação que aquele homem vive.
Está errado. Profundamente errado.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

"A Terra não é igual em lado nenhum"


Serra da Gardunha - Imagem da net

«A Terra não é igual em lado nenhum.

Aqui encolhe-se, ali espalma-se, acolá afunda-se.

Como acontece num grande livro, que tem páginas para lágrimas e páginas para sorrisos, assim a
natureza conta uma história alegre em Viana e uma história trágica no Cabo de S. Vicente.»

(Miguel Torga)

Diário III

Fundão, Serra da Gardunha, 24 de Fevereiro de 1945

domingo, 4 de outubro de 2009

Porque hoje é Domingo (71)


Capela na zona do Minho. Imagem da net

Convidados para o Reino de Deus

Ao ouvir isto, um dos que estavam sentados á mesa disse a Jesus:
«Feliz aquele que se sentar á mesa no Reino de Deus!»
Jesus respondeu-lhe:
«Um certo homem preparou um dia um grande banquete e convidou muita gente.
Á hora da festa mandou um criado dizer aos convidados:
«Venham, que está tudo pronto.»
Mas todos eles, um por um, se foram desculpando. O primeiro disse: «Comprei um campo e tenho que ir vê-lo. Desculpa mas não posso ir.» Outro disse : «Comprei cinco juntas de bois e vou experimentá-los. Não posso ir.»Outro desculpou-se assim: «Acabei de casar e por isso não posso ir.»
O criado voltou e contou isso tudo ao dono da casa. Ele então muito zangado, deu-lhe esta ordem:
«Vai depressa pelas praças e pelas ruas da cidade e trás para cá os pobres, os inválidos, os cegos e os coxos.»
Quando o criado, voltou disse: «Já fiz como mandastes mas ainda há lugares.»Então aquele senhor acrescentou:«Vai pelos caminhos e pelos atalhos e e obriga-os a vir, para que a minha casa fique cheia.
Garanto-vos que nenhum daqueles que convidei primeiro, há-de provar da minha ceia.»

(Evangelho S. Lucas 14:15 a 24)

sábado, 3 de outubro de 2009

Ainda a ti Ana


Cesta de fisos do Algarve - imagem da net

Regava eu o jardim diante da casa da aldeia, estes dias, quando ouvi uma voz já conhecida, que dizia para a Teresinha, que varria os figos caídos no caminho e as folhas da figueira, ao lado da casa:
"Bom dia!
Dê-me dois ou três figuinhos se faz favor."
Era a ti Ana.
A velhinha de noventa e muitos anos que é alentejana, que veio viver já há muito tempo com o unico filho que tem, e que mora numa casinha branca, mesmo por trás do muro do nosso quintal.
Já aqui falei dela mais do que uma vez.
Ela sempre me impressiona quando a vejo.
Parei a rega e dirigi-me para junto dela, pois não poderia de maneira nenhuma perder mais esta oportunidade de falar com ela, de a olhar, de a ouvir, e de a admirar.
Vou á aldeia uma vez por semana e nem sempre a vejo.
Tenho sempre o receio de não a voltar a ver, pois sei que um dia destes, ela vai-se ficar, como diz o povo, "que nem um passarinho".
Ao chegar junto dela, impressionou-me como ela vai ficando cada vez mais pequenina e mais magrinha.
O seu rosto não é maior que o rosto de uma criança pequena. Posso dizer que apenas a pele, o cobre. São cada vez mais evidentes os pequenos ossos nas "maçâs" do rosto.
Tem algumas rugas, não muitas, que lhe dão uma beleza ainda maior.
È tão estreitinho o seu perfil, que até dá a ideia que se tornou quase transparente, podendo nós ver, quando a olhamos de frente, o lado das suas costas.
Mas é tão lindinha!
Tem o rosto bronzeado de andar sempre ao sol; ela anda quase sempre por ali por o quintal, com uma enxada, arrancando ervas que crescem á beira do caminho, ou então com a vassoura na mão a varrer as folhas mortas que o tapam; não é mais que um pequeno carreiro por onde passam as poucas pessoas das duas ou tres casas que ficam lá atrás.
Não pára quieta, está sempre por ali a lidar, a fazer qualquer coisa.
Quando lhe falo nisso ela responde que não consegue estar parada, que gosta muito de trabalhar, que sempre trabalhou muito durante toda a vida.
E enquanto ali estava falando conosco, com a vassoura que trazia na mão, ajudou a Teresinha a limpar o caminho das folhas da figueira que já começaram a cair, e dos muitos figos que de tão maduros caem lá do alto da árvore para o chão, e perigam fazer as pessoas escorregar neles e caírem.
Ali ficou longo tempo a conversar conosco.Vía-se que precisava de falar.
Despedi-me dela abraçando-a carinhosamente e pensando:
Será que quando cá voltar a encontrarei?
Quem sabe?
Lá seguiu o seu caminho com o saquinho de figos na mão.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Louvação - Um poema de Gióia Júnior


Cordeiro - Imagem da net

Cristo dos pobres,
dos pequeninos,
dos angustiados,
dos libertinos,
das prostitutas,
dos assaltantes,
dos operários,
dos estudantes,
dos cancerosos,
e dos lixeiros,
dos perseguidos,
dos prisioneiros...
NÓS TE LOUVAMOS!


Cristo dos orfãos,
e dos perdidos,
dos humilhados,
dos ofendidos,
Cristo dos sábios,
e das crianças,
das alegrias,
das esperanças,
Cristo dos simples,
Cristo dos fracos,
das enxovias
e dos barracos...
NÓS TE LOUVAMOS!


Cristo do berço
na estrebaria,
Cristo da humilde
carpintaria,
Cristo menino
com os doutores,
Cristo da luta
dos professores,
Cristo da calma
no mar profundo,
descanso da alma,
Senhor do mundo...
NÓS TE LOUVAMOS!


Cristo de Judas
e das moedas,
das nossas dores,
das nossas quedas,
da nossa angústia,
da nossa ofensa,
do nosso medo.
da nossa crença,
das nossas preces,
dos nossos ais,
dos orfanatos,
dos hospitais...
NÓS TE LOUVAMOS!


Cristo dos gritos
e das canções,
dos escritórios
e das prisões,
Cristo das ruas
e das distancias,
dos sofrimento,
das ambulâncias,
dos nossos crimes,
dos nossos erros,
dos casamentos
e dos enterros...
NÓS TE LOUVAMOS!


Cristo do brilho
da estrela D`Alva,
Cristo que ensina,
Cristo que salva,
Cristo Verdade
que me motiva,
Cristo que morre
para que eu viva,
Cristo que sofre
na cruz maldita,
mas vence a morte
e ressuscita...
NÓS TE LOUVAMOS


Cristo que fende
do Templo o véu,
que move a pedra,
que sobe ao céu,
que vive e reina
no Paraíso,
que me prepara
para o Juízo,
Cristo que aplaca
minha revolta
e me promete
que logo volta...
NÓS TE LOUVAMOS!


Cristo que sabe
qual o meu nome,
que me alimenta
se tenho fome,
que me levanta
se estou no chão,
que me anistia
com seu perdão,
que me sacode,
que me desperta,
que me abençoa,
que me liberta...
NÓS TE LOUVAMOS!


Nós te louvamos
eternamente,
numa harmonia
de corpo e mente.
Nasce das luzes
o nosso canto:
bendito seja
Teu nome Santo!
Guia, Caminho,
Verdade Bem...
NÓS TE LOUVAMOS!
AMEN! AMEN!

(Gióia Júnior)