
Quando há dias passeava com os filhos e os netos em Sintra, na Avenida principal, á procura de uma esplanada para tomar-mos um cafézinho, e intretida que ia admirando as belas arquitecturas dos prédios antigos, de repente, quase que esbarro com alguma coisa que era nova ali.
Mesmo ao meu lado, dou com os olhos numa escultura cuja figura me era familiar.
Reparo melhor e apercebo-me que o busto que ali está á minha fente, era nem mais mem menos do Dr. Simplício
Naquele momento emocionei-me... e não resisti a dar asas ao coração, indo buscar os bons e inesquecíveis tempos que passámos juntos na sala de operações, ele operando estomagos e bócios, e eu, jovenzinha, acabadinha de formar, enfermeira instrumentista - que preparava e lhe dava para a mão os instrumentos que a par e passo ele ia usando na operação, trabalhando assim em estreita ligação com ele.
Trabalháva-mos no maior hospital de Lisboa - o Hospital Universitário de Santa Maria, no serviço de Clínica Cirúrgica, que tinha um grande número de médico divididos em equipas, cada uma destas responsável por um determinado tipo de cirúrgia, e eu... trabalhava com todos eles, num plano semanal de operações.
O Dr. Simplício era um homem bom, correcto, educado, fino, gentil, bom conversador, afável, atencioso e que gostava de partilhar o que sabia. Aprendi muita coisa com ele e como ele sabia que eu me interessava muito por o nosso trabalho, muitas vezes ele parava um pouco para me mostrar e explicar aspectos interessantes das cirúrgias.
Enquanto havia lá outros médicos noutras equipas, que não se coiibiam de gritar com os colaboradores e até por vezes atirar contra a parede uma tesoura que cortava mal... o Dr. Simplício nunca levantava a voz e era de uma educação extrema.
Viveu a vida inteira em Sintra, terra que ele amava e pela qual fez coisas incríveis, até ao fim dos seus dias, já bem velhinho.
Toda a gente em Sintra e aldeias e terrinhas á volta, o conheciam, porque praticamente toda a gente lhe passou por as mãos, como médico. Foi inclusivé, médico do meu pai.
Eu, depois saí do Hospital de Santa Maria e fui trabalhar no Instituto Maternal e depois na Administração Regional de Saúde de Lisboa e nunca mais o vi.
Soube que ele tinha falecido em 2007, e tive imensa pena de não saber a tempo de o poder acompanhar no seu funeral.
Por tudo isso que descrevo atrás... podem por certo imaginar como eu fiquei quando vi ali á minha frente, inesperadamente, o busto do Dr. Simplício.
Falei com ele, disse-lhe algumas palavras bonitas e com as lágrimas nos olhos não resisti a passar-lhe suavemente a mão rosto.