Imagem da netOntem, quando aguardava na fila a minha vez de ser atendida na Caixa Geral de Depósitos, assisti a uma cena que me marcou profundamente.
Com enorme espanto, apercebo-me da entrada de uma senhora, na casa dos sessenta anos, amparada por um jovem do lado direito, e por uma jovem do lado esquerdo, nos braços dos quais se apoiava, num estado de tamanha fragilidade e magreza que não se conseguia manter de pé sem apoio.
Reparei ainda na distenção abdominal, enorme, (ascite ou "barriga de água") que contrastava com a estreiteza dos ombros.
Os acompanhantes sentaram-na numa cadeira onde aguardou até ser atendida.
Quando a funcionária do Banco se dispôs a atendê-la, eu , como estava perto, sem querer, ouvi o diálogo entre as duas.
Funcionária: "Faça favor de dizer":
Senhora: " Olhe, eu estou muito doente e vou morrer, vinha cá saber o que é preciso fazer para depois de eu falecer o Estado não me vir cá tirar o dinheiro da minha conta."
Funcionária: "Quando a senhora falecer nós aqui não vamos comunicar a ninguém."
Senhora: "Mas há a possibilidade do Estado vir a saber que eu faleci"?
Funcionária. "Se por acaso houver um cruzamento de dados, de outras instituições com a Caixa... poderá vir a saber sim."
Senhora: "Então diga-me como é que eu tenho de fazer isto".
Funcionária: O que eu aconselho que a senhora faça é abrir uma nova conta juntamente com o seu filho. Assim, quando a senhora falecer ele poderá levantar o dinheiro ou movimentar a conta".
Senhora: "Então vamos abrir essa tal conta."
E virando-se para o jovem filho pediu-lhe o bilhete de identidade, e lá procederam a todos os requesitos da abertura da nova conta.
Quando terminaram, os jovens (nora e filho) ajudaram-na a levantar-se, e ela, apoiada nos braços deles, atravessou a sala, passou por o meio das pessoas e chegada á rua lá fora, meteram-na num carro e lá seguiram com ela, não sei se para uma cama de hospital, ou para a sua cama em casa.
Fiquei perturbada e a pensar:
Mas o que é isto?
Como é possível que as coisas estejam de tal forma mal organizadas na nossa sociedade, que para resolver um assunto relacionado com dinheiros, seja preciso, exigido, que uma mulher tão doente e em tão mau estado físico, tenha que levantar-se da cama e sem poder, vir ao Banco para que os seus interesses possam ser defendidos?'
Não seria suposto que em pleno século vinte e um, esta muilher em fase terminal de vida, fosse deixada em paz com a sua situação de doença, e as Instituições se preocupassem em pensar em como resolver esta problemática, sem ser desta forma?'
Afinal, qual é o sinal de progresso e modernidade das instituições, quando se trata de casos como estes, destas pessoas?