sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Esperar pacientemente em épocas de crise


 Partilhamos hoje, aqui, com os amigos, um texto da autoria do  estimado pastor Alan Pallister, no seu livro - Lucros da Fé, editado este ano.

«Aconselhamos os  nossos leitores a esperar pacientemente em  épocas de crise. Isaías (profeta)  promete forças novas para aqueles que esperam no Senhor (Isaías 40:31). Temos, no entanto, de deixar claro que paciência, no sentido bíblico, não coincide com o sentido comum desta palavra na língua portuguesa. A paciência que se costuma recomendar aos aflitos é a aceitação cega  e impotente de um destino adverso e cruel. Na Bíblia, paciência significa aguentar  um fardo difícil, com esperança e verdadeira confiança num Deus que é fiel e cuja natureza é criar soluções novas e alegres. A paciência espera uma saída positiva e também um fruto positivo de todo o sofrimento provocado pelas dificuldades experimentadas ( Tiago1: 2 e 4)»

Nota:

Eu acho o livro muito belo e muito valioso.Acaso algum  amigo deseje adquiri-lo aqui deixo a indicação onde o poderá comprar:

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quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Ainda, as Mães



MARGARIDA MARANTE

4º ANO DE SAUDADE
 
SEMPRE  PRESENTE
 NOS NOSSOS CORAÇÕES.
 
DA MÃE
E DOS FILHOS
 
(Diário de Notícias - 05/10/2016 )

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Tempestade - Um poema de Francisco A. Magueijo

Fonte da imagem: blogue.eaqui.pt


TEMPESTADE

O céu escureceu.
Formou-se a tempestade
Que envolvida nas trevas,
À terra desceu.
O granizo caiu
Ao som do trovão,
Enquanto os raios
Tudo iluminavam
Com o seu clarão.
Lá no povoado
Em mostra de fé,
As pessoas crentes
Estão em oração.
Do alto da serra
Já nada se via
E só se sentia
Ao pisar a terra.
Ouviam-se gritos
Comoventes aflitos
Que pareciam de dor.
E a chuva fria
Pelas vertentes descia
Causando pavor.
Ao fundo a ribeira,
negra, traiçoeira
Tornou-se impotente.
O moleiro e o moínho,
Foram na corrente...
Manhãnzinha a moleira
Que veio à ribeira
Buscar a farinha,
Fez o seu pranto baixinho,
Ao moleiro e ao moinho
Que a deixaram sozinha.

Nota: grande tristeza do autor.

(Francisco Magueijo - no livro - O Amor Perfuma a Vida)

Nota pessoal:

Este poeta popular, era um antigo, e grande amigo meu, de Maceira - Pero Pinheiro.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Apresentando a Bíblia em Verso (4) Uma obra de Eduardo Henriques Moreira


Continuação

Expulsos do Éden foram
para não entrarem mais,
Com dor cavaram a terra,
teve ela os filhos com ais.

Os seus dois primeiros filhos
foram  Abel e Caim;
um pastor, outro hortelão,
um manso e outro ruim.

O sacrifício de Abel
foi do agrado do Senhor;
não assim o do irmão,
que ardeu de injusto furor.

Vindo do campo, um belo dia
Caim ao irmão deu caça.
Desde então em guerra acesa
tem vivido a nossa raça.

Vários filhos criou Eva
e filhas teve igualmente;
mas de Sete é que nasceu
abençoada semente.

Caim fugido da face
da divina Omnipotência,
fez a primeira cidade,
teve grande descendência.

Décimo depois de Adão
foi Noé,o patriarca;
Pra se livrar do dilúvio
construiu uma grande Arca

Todo o mundo corrompido
no dilúvio pereceu.
Sacrifício a Deus Supremo
Noé por fim ofereceu.

A Arca e o sacrifício
nessa terra desolada,
Do Messias Salvador
é visão antecipada. 

(Na Bíblia em verso - Uma obra do Pastor Eduardo Henriques Moreira -
continua na próxima semana, querendo Deus)

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

E o mês de Outubro já aí está...

Outubro, no Douro vinhateiro. Fonte da imagem:https://www.google.pt/

OUTUBRO

Outubro é o oitavo mês do antigo calendário romano. Os eslavos chamam-lhe "Mês amarelo" devido à cor que as folhas adquirem; os Anglo-saxões conheciam-no  por "Fylleth" de Inverno, porque consideravam que nesta lua-cheia "fylleth"  começava a estação mais fria.

 (No  livro - A Alegria de viver com a Natureza - de Edth Holden)

Alguns provérbios sobre Outubro

 ! - Outubro quente traz o diabo no ventre

2 - Logo que Outubro venha, prepara lenha.

3 - Outubro  meio chuvoso faz o lavrador venturoso

4 - Em Outubro, sê prudente: guarda pão e semente

5 - Em Outubro pega tudo

6 -  Outubro  lavrar, Novembro semear,  Dezembro  nascer.


      OUTUBRO É AINDA O MÊS DA MIGRAÇÃO DE MUITAS AVES

    
Gansos migrando - Fonte da imagem:www.infoescola.com 

  Um registo de Edith Holden sobre o que observou no dia 3 de Outubro de 1906 (há 110 anos atrás)

"Desapareceram todos os andorinhões e há vários dias que não vejo andorinhas - dos - beirais. Muito antes de deixar Perthshire, costumava assomar todas as manhãs à janela para ver voar esses pássaros. Antes de partirem costumam juntar-se em grande número nos telhados das casas. Ainda podem ver-se algumas andorinhas, mas a maioria já partiu para o sul. Os piscos - de - peito ruivo  começam outra vez  a cantar."
  
           
Norça-preta ou Arrebenta-boi (Tamus communis) Fonte: sementesdeportugal.blogspot.com


  ALGUMAS EFEMÉRIDES

Nobel da Paz  Martin Luther King - 1964

Nasce Raul Solnado  (1929 - 2009)

Primeiro Concerto da Orquestra Gulbenkian (1962)

Nasce Pablo Picasso (1881 - 1973)

 Desejo a todos os amigos que por aqui passarem, um agradável e feliz mês de Outubro.

domingo, 2 de outubro de 2016

Porque hoje é Domingo (409)




AS CONDIÇÕES PARA SEGUIR JESUS


 Disse então a todos:  «Se alguém quizer vir atrás de mim, que se negue a si mesmo, levante a sua cruz, dia após dia, e me siga. Quem quizer salvar a sua vida  perdê-la -á; mas quem perder a sua vida por minha causa  salvá-la-á. Pois no que fica beneficiada uma pessoa que ganhou o mundo inteiro  mas  se perde e se destrói a si própria?
Pois aquele que se envergonhar de mim e das minhas palavras, desse se envergonhará  o Filho da Humanidade, quando vier  na sua glória e na glória do Pai e dos santos anjos.

(Evangelho de S. Lucas cap.9:23 a 26
Na nova tradução da Bíblia da responsabilidade de Frederico Lourenço)

sábado, 1 de outubro de 2016

Sobre uma nova tradução da Bíblia por Frederico Lourenço

O  Professor Frederico Lourenço. Fonte da Imagem:http://quetzal.blogs.sapo.pt/ .


Do OBSERVADOR - Texto de José Manuel Fernandes

               

                     

Sexta-feira. Dois dias de descanso pela frente e um Macroscópio que retoma a tradição destas alturas, isto é, a de reunir uma mão-cheia de leituras estimulantes – e desafiantes – não necessariamente relacionadas umas com as outras. Mas, espero, capazes de proporcionarem bons momentos e, sobretudo, permitirem que os meus leitores ganhem alguma coisa passando os seus olhos por elas neste sábado e domingo.

 Uma nova edição da Bíblia. Diferente das demais
Frederico Lourenço, académico e tradutor, responsável por algumas das melhores traduções dos clássicos gregos, abalançou-se agora, a convite da Quetzal, a traduzir a Bíblia directamente da sua primeira versão em grego, a qual deriva também directamente do original hebraico. Há toda uma história em torno das diferentes traduções do texto sagrado, algo que Frederico Lourenço aborda na introdução a esta edição e que é também tema dos dois textos que vos recomendo de seguida.

 O primeiro é uma entrevista ao tradutor, saída hoje no Público, Uma Bíblia que “não esconde as realidades inconvenientes”. Nela assume-se que a tradução não segue uma linha canónica: “Não há nada de ofensivo para católicos na minha tradução da Bíblia, mas há uma clara linha não-confessional que assumi de forma consciente. Não me deixei condicionar por nada daquilo que são as convenções aceites na tradução do Novo Testamento, quer católicas, quer protestantes. Ative-me apenas à materialidade linguística do texto. Não disfarcei as frases incómodas, não limei as arestas, não escondi realidades inconvenientes. Na minha tradução lê-se ‘escravos’ e não ‘servos’ ou ‘criados’; também não disfarcei as passagens misóginas e homofóbicas de Paulo. (...) Acho que a mais-valia da minha tradução é justamente o facto de estar fora do catolicismo, mas não contra o catolicismo”.


 No Observador o padre, poeta e especialista em estudos bíblicos José Tolentino Mendonça faz a recensão da tradução e, elogiando o trabalho da editora e do tradutor, não evita abordar, em A Bíblia de Frederico Lourenço: aplausos e uma questão, os temas mais controversos: “Há uma pequena questão de fundo que emerge, aqui e ali, nas introduções escritas para este primeiro volume e que me parece ganhar em ser enfrentada. É que Frederico Lourenço afirma que as traduções feitas no contexto religioso são doutrinárias, apologéticas e reproduzem uma leitura pré-determinada, enquanto que a sua tem como intuito fazer "perceber, em português, exatamente o efeito que as palavras têm em grego". Cada um tem direito à sua naiveté e às ilusões que quiser, mas entendamo-nos: não existe “a tradução” da Bíblia. Existem traduções, assim no plural, e estas têm qualidades e deficiências distintas, e devem ser acolhidas como dialogantes, longe de uma lógica primária de substituição. Que judaísmo e cristianismo tomam a Bíblia absolutamente a sério, Frederico Lourenço sabe-o bem, pois para esta sua tradução depende do trabalho de biblistas e exegetas judeus e cristãos que vê-se obrigado a citar a cada passo.


Ainda um artigo pulicado no Observador, da autoria de  António Guerreiro (30/09/2016)

UMA BIBLIA QUE "NÃO ESCONDE  AS REALIDADES INCONVENIENTES"

Frederico Lourenço passou dos clássicos gregos para a Bíblia grega, tarefa grandiosa que faz emergir uma série de questões. É a mais completa tradução da Bíblia que alguma vez foi feita. Diz que não disfarçou as frases incómodas, não limou as arestas, nem as passagens misóginas e homofóbicas.


 Frederico Lourenço lançou-se sozinho num empreendimento que, pela sua grandeza, foi muitas vezes resultado de um trabalho de equipa: a tradução, do grego, dos 80 livros da Bíblia, o Velho e o Novo Testamento, oferecendo a mais completa tradução da Bíblia que alguma vez foi feita em língua portuguesa. O primeiro volume, contendo os quatro evangelhos, de Mateus, Marcos, Lucas e João, acaba de ser editado. A este seguir-se-ão mais cinco volumes, com os quais se completará a tradução integral da Bíblia Grega.

E, de repente, este trabalho grandioso veio colocar questões e trazer ao conhecimento público aspectos e circunstâncias históricas da tradução, da recepção e das várias versões da Bíblia que ficaram quase sempre reservados aos eruditos dos estudos bíblicos. O ofício catequético da Igreja Católica nunca favoreceu um conhecimento da Bíblia que não fosse a do Livro onde se derramou, para sempre, a palavra imutável de Deus. A Bíblia como um livro plural, não homogéneo, polifónico, escrito ao longo de um arco temporal que perfaz mais de mil anos, em várias línguas e em diferentes estados da mesma língua, irredutível a uma unidade a não ser pelas leituras e interpretações fixadas no cânone doutrinário, eis uma imagem e uma concepção que a confessionalidade consegue esconder ou anular.
Frederico Lourenço não é padre nem teólogo, é um helenista e tradutor de alguns clássicos gregos (são bem conhecidas as traduções que fez da Odisseia e da Ilíada, que a editora Cotovia publicou); não faz parte de nenhuma Igreja, é um universitário (da Universidade de Coimbra), tem formação filológica completada com outras vocações.

 E isso mesmo faz ele questão em sublinhar, ao responder a uma questão que lhe pusemos: “Parto de um pressuposto não-teológico, mas ao mesmo tempo de uma predisposição de simpatia em relação ao cristianismo. Do mesmo modo que, na tradução do Antigo Testamento, parto de uma predisposição de simpatia em relação ao judaísmo. Mas essa simpatia não me inibe de fazer introduções, notas e comentários ao texto bíblico que focam de uma maneira desassombrada as contradições que são inerentes aos textos, as suas discrepâncias, os seus anacronismos mal disfarçados, a sua incompatibilidade com algumas realidades históricas.”

Porquê do grego?

 Leia-se, neste primeiro volume, a apresentação, a introdução e o extenso aparelho de notas para percebermos imediatamente que esta Bíblia é obra de um tradutor e de um estudioso que trata o texto sagrado como tratou os textos profanos. Falando-nos sobre isso, ele esclarece: “Não há nada de ofensivo para católicos na minha tradução da Bíblia, mas há uma clara linha não confessional que assumi de forma consciente. Não me deixei condicionar por nada daquilo que são as convenções aceites na tradução do Novo Testamento, quer católicas, quer protestantes. Ative-me apenas à materialidade linguística do texto. Não disfarcei as frases incómodas, não limei as arestas, não escondi realidades inconvenientes.”

 “Na minha tradução lê-se ‘escravos’ e não ‘servos’ ou ‘criados’; também não disfarcei as passagens misóginas e homofóbicas de Paulo. Mas, por outro lado, as traduções existentes são desnecessariamente androcêntricas, sobretudo em passagens em que a palavra ‘homens’ significa, na realidade, ‘pessoas’. Acho que a mais-valia da minha tradução é justamente o facto de estar fora do catolicismo, mas não contra o catolicismo.” Demos um exemplo eloquente: S. Jerónimo, autor da tradução latina da Bíblia que se tornaria a Vulgata aprovada pela Igreja, traduziu com a palavra “peccatum” uma das palavras mais comuns e importantes da liturgia, uma palavra grega que significa “erro”. E é assim que Frederico Lourenço a traduz muitas vezes (não de maneira sistemática, por razões que ele explica na Introdução). “Erro”, em vez de “pecado”, não é certamente assimilável à liturgia da Igreja Católica

Esta tradução, explica, “é um trabalho de rigor, de literalidade, de captação do sentido original da forma mais próxima possível, tenta dar a ler o grego tal como ele é”. Mas ela tem um efeito já bem visível nos primeiros actos públicos da sua recepção, na medida em que nos obriga a fazer perguntas e a pedir esclarecimentos sobre aspectos que quase nunca emergem na transmissão corrente do texto bíblico. A primeira pergunta que o público leigo fez foi esta: porquê a tradução de uma Bíblia integralmente grega? Afinal, em grego não foram escritos apenas os livros do Novo Testamento e uns poucos livros –  sete, ao todo – do Antigo Testamento? Tudo o resto, que é muito, não foi escrito em hebraico? Porquê fazer a tradução de uma tradução, isto é, a tradução da tradução grega dos originais hebraicos? Para responder a esta pergunta é preciso contar a história da Bíblia Grega, tal como ela nasceu no Egipto, na cidade de Alexandria, no século III a.C.

 Essa história (que Frederico Lourenço narra na Apresentação) foi conhecida através de uma carta que data de cerca do ano 100 a.C., enviada por um tal Aristeas ao seu irmão Filócrates – carta que chegou até nós graças às citações que dela foram feitas por, entre outros, Fílon de Alexandria e Santo Agostinho. Por ela, ficou-se a saber que 72 sábios judeus – daí a denominação "Bíblia dos Setenta ou Septuaginta") foram convidados pelo rei Ptolemeu Filadelfo para traduzir em grego os livros da Lei, ou Torah (ou seja, o Pentateuco, os cinco primeiros livros). Essa tradução promovida pelo rei Ptolemeu respondia às necessidades e exigências da comunidade judaica de Alexandria, que não conhecia a língua hebraica. O que aconteceu em Alexandria é geralmente considerado um facto extraordinário, porque mostra o encontro da cultura helénica com o património do judaísmo. A fé bíblica e o pensamento grego: este encontro evoca a mais ampla e profunda experiência da cultura ocidental, indicada geralmente pelo nome de duas cidades, Atenas e Jerusalém

 A Bíblia Grega, para além dos livros do cânone hebraico, integra também as obras deuterocanónicas e algumas que não fazem parte do cânone católico. A Septuaginta não foi uma (a primeira, aliás) entre muitas outras traduções da Bíblia, já que teve um papel importantíssimo para a Igreja das origens, nos primeiros séculos do cristianismo. O Novo Testamento usou esta tradução para as suas citações bíblicas e transmitiu-a à posteridade. A Bíblia Grega era a Bíblia da Igreja cristã. Até entrar em cena a Vulgata latina de S. Jerónimo, todas as traduções do Antigo Testamento eram baseadas não na Bíblia hebraica, mas na Septuaginta, que Santo Agostinho considerou inspirada (a inspiração é um conceito teológico que se refere às obras dos homens – neste caso, as Escrituras – que receberam uma supervisão especial do Espírito Santo.


O sagrado e o profano

Jerónimo introduziu o conceito de hebraica veritas, a verdade hebraica, que significou um programa de correcção dos textos latinos correntes (e sujeitos a traduções adulteradas) com base no texto hebraico.


 Agostinho, pelo contrário (e este foi um motivo da importante discussão que teve com Jerónimo), defendia o texto grego. A polémica questão da helenização da Bíblia, que tem o seu motivo mais forte e inaugural na Bíblia dos Setenta, atravessa os séculos e chega até nós. Em França, Henri Meschonnic traduziu alguns livros da Bíblia com o explícito propósito de “des-helenizar” a Bíblia. Para ele, a versão grega dos Setenta não é concebível como um texto judaico, escrito por judeus e para judeus inseridos num meio judeu. No fundo, ele não aceita o grego como língua bíblica e toma partido pelos textos hebraicos, os textos massoréticos.
Referi brevemente o exemplo de Meshonnic porque se trata de um tradutor (e de um importante teórico da tradução e da literatura, já falecido) que deu origem a fortes polémicas, mostrando como neste território bíblico se erguem por todo o lado campos de batalha. Não se julgue, pois, que a tradução da Bíblia Grega por Frederico Lourenço é um passeio – grandioso, é certo – por campos pacíficos e harmoniosos.


 Para já, podemos afirmar que ela tem um efeito muito importante e altamente meritório: sendo feita por um universitário helenista e tradutor da literatura grega, exibe um frutuoso campo de colaboração e de coincidência entre os estudos clássicos e os estudos da Bíblia, entre a filologia dos textos sagrados e a filologia dos textos profanos. Deste modo – e todo o aparato crítico das notas, dos comentários e das introduções confirmam e reforçam esta perspectiva – Frederico Lourenço afasta aquela ideia muito catequista, muito apologética, muito subtraída a qualquer démarche crítica, de que a Bíblia é um supertexto, ou um texto que está acima de todos os textos, para além da materialidade textual e da condição linguística e literária, para além de todas as investigações históricas, filológicas e arqueológicas. Sabemos como esta ideia, que só quer ver no texto bíblico uma verdade fixada como livro único e eterno que transcende a sua materialidade e a história das suas leituras, das suas traduções e dos seus usos, foi mesmo responsável por pesadas restrições à leitura da Bíblia e à sua tradução em “línguas vulgares”.

Frederico Lourenço não quis apagar o texto para restituir apenas o sentido, como fizeram os tradutores da tradição cristã. Mas também não quis fazer o oposto: uma tradução de escritor, uma “tradução poética”, como Meschonnic, obcecado pelo ritmo e pelo significante. À questão que lhe colocámos sobre o carácter literário da tradução da Bíblia respondeu: “Não vejo a tradução de obras como a Odisseia ou a Bíblia como acto literário. Nunca tomo nenhuma opção só para o texto ficar bonito em português. Às vezes o texto até fica estranho: isso vale tanto para as minhas traduções de Homero como do Novo Testamento. Mas se as frases são estranhas no original, a tradução tem de espelhar isso. Sou contra passar todas as rugas a ferro.”
Outro efeito da tradução da Bíblia por Frederico Lourenço é o de mostrar que as traduções sucessivas não se anulam, mas acrescentam-se, ao longo de um processo que começou com a Bíblia Grega; e que a Bíblia não existe senão pela história das suas traduções, por mais que essa história surja obliterada pelos guardiães de uma concepção da verdade bíblica como palavra refractária a toda a tradução.

No  Observador - https://mail.google.com/

 Nota pessoal:

Aqui em casa, já temos um belíssimo exemplar  do primeiro volume desta Bíblia  - Os Evangelhos  de Mateus, Marcos , Lucas  e João - uma gentil oferta do nosso filho João.