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| O Professor Frederico Lourenço. Fonte da Imagem:http://quetzal.blogs.sapo.pt/ . | | | |
Do OBSERVADOR - Texto de José Manuel Fernandes
Sexta-feira. Dois dias de descanso pela frente e um Macroscópio que
retoma a tradição destas alturas, isto é, a de reunir uma mão-cheia de
leituras estimulantes – e desafiantes – não necessariamente relacionadas
umas com as outras. Mas, espero, capazes de proporcionarem bons
momentos e, sobretudo, permitirem que os meus leitores ganhem alguma
coisa passando os seus olhos por elas neste sábado e domingo.
Uma nova edição da Bíblia. Diferente das demais
Frederico Lourenço, académico e tradutor, responsável por algumas das
melhores traduções dos clássicos gregos, abalançou-se agora, a convite
da Quetzal, a traduzir a Bíblia directamente da sua primeira versão em
grego, a qual deriva também directamente do original hebraico. Há toda
uma história em torno das diferentes traduções do texto sagrado, algo
que Frederico Lourenço aborda na introdução a esta edição e que é também
tema dos dois textos que vos recomendo de seguida.
O primeiro é uma entrevista ao tradutor, saída hoje no Público,
Uma Bíblia que “não esconde as realidades inconvenientes”. Nela assume-se que a tradução não segue uma linha canónica: “
Não
há nada de ofensivo para católicos na minha tradução da Bíblia, mas há
uma clara linha não-confessional que assumi de forma consciente. Não me
deixei condicionar por nada daquilo que são as convenções aceites na
tradução do Novo Testamento
, quer católicas, quer protestantes.
Ative-me apenas à materialidade linguística do texto. Não disfarcei as
frases incómodas, não limei as arestas, não escondi realidades
inconvenientes. Na minha tradução lê-se ‘escravos’ e não ‘servos’ ou
‘criados’; também não disfarcei as passagens misóginas e homofóbicas de
Paulo. (...) Acho que a mais-valia da minha tradução é justamente o
facto de estar fora do catolicismo, mas não contra o catolicismo”.
No Observador o padre, poeta e especialista em estudos bíblicos José Tolentino Mendonça faz a recensão da tradução e, elogiando o trabalho da editora e do tradutor, não evita abordar, em
A Bíblia de Frederico Lourenço: aplausos e uma questão, os temas mais controversos: “
Há
uma pequena questão de fundo que emerge, aqui e ali, nas introduções
escritas para este primeiro volume e que me parece ganhar em ser
enfrentada. É que Frederico Lourenço afirma que as traduções feitas no
contexto religioso são doutrinárias, apologéticas e reproduzem uma
leitura pré-determinada, enquanto que a sua tem como intuito fazer
"perceber, em português, exatamente o efeito que as palavras têm em
grego". Cada um tem direito à sua naiveté
e às ilusões que
quiser, mas entendamo-nos: não existe “a tradução” da Bíblia. Existem
traduções, assim no plural, e estas têm qualidades e deficiências
distintas, e devem ser acolhidas como dialogantes, longe de uma lógica
primária de substituição. Que judaísmo e cristianismo tomam a Bíblia
absolutamente a sério, Frederico Lourenço sabe-o bem, pois para esta sua
tradução depende do trabalho de biblistas e exegetas judeus e cristãos
que vê-se obrigado a citar a cada passo.
Ainda um artigo pulicado no Observador, da autoria de António Guerreiro (30/09/2016)
UMA BIBLIA QUE "NÃO ESCONDE AS REALIDADES INCONVENIENTES"
Frederico Lourenço passou dos clássicos gregos para a Bíblia grega,
tarefa grandiosa que faz emergir uma série de questões. É a mais
completa tradução da Bíblia que alguma vez foi feita. Diz que não
disfarçou as frases incómodas, não limou as arestas, nem as passagens
misóginas e homofóbicas.
Frederico Lourenço lançou-se sozinho num empreendimento que, pela sua
grandeza, foi muitas vezes resultado de um trabalho de equipa: a
tradução, do grego, dos 80 livros da Bíblia, o Velho e o Novo
Testamento, oferecendo a mais completa tradução da Bíblia que alguma vez
foi feita em língua portuguesa. O primeiro volume, contendo os quatro
evangelhos, de Mateus, Marcos, Lucas e João, acaba de ser editado. A
este seguir-se-ão mais cinco volumes, com os quais se completará a
tradução integral da Bíblia Grega.
E, de repente, este trabalho grandioso veio colocar questões e trazer
ao conhecimento público aspectos e circunstâncias históricas da
tradução, da recepção e das várias versões da Bíblia que ficaram quase
sempre reservados aos eruditos dos estudos bíblicos. O ofício
catequético da Igreja Católica nunca favoreceu um conhecimento da Bíblia
que não fosse a do Livro onde se derramou, para sempre, a palavra
imutável de Deus. A Bíblia como um livro plural, não homogéneo,
polifónico, escrito ao longo de um arco temporal que perfaz mais de mil
anos, em várias línguas e em diferentes estados da mesma língua,
irredutível a uma unidade a não ser pelas leituras e interpretações
fixadas no cânone doutrinário, eis uma imagem e uma concepção que a
confessionalidade consegue esconder ou anular.
Frederico Lourenço
não é padre nem teólogo, é um helenista e tradutor de alguns clássicos
gregos (são bem conhecidas as traduções que fez da
Odisseia e da
Ilíada,
que a editora Cotovia publicou); não faz parte de nenhuma Igreja, é um
universitário (da Universidade de Coimbra), tem formação filológica
completada com outras vocações.
E isso mesmo faz ele questão em sublinhar, ao responder a uma questão
que lhe pusemos: “Parto de um pressuposto não-teológico, mas ao mesmo
tempo de uma predisposição de simpatia em relação ao cristianismo. Do
mesmo modo que, na tradução do Antigo Testamento, parto de uma
predisposição de simpatia em relação ao judaísmo. Mas essa simpatia não
me inibe de fazer introduções, notas e comentários ao texto bíblico que
focam de uma maneira desassombrada as contradições que são inerentes aos
textos, as suas discrepâncias, os seus anacronismos mal disfarçados, a
sua incompatibilidade com algumas realidades históricas.”
Porquê do grego?
Leia-se, neste primeiro volume, a
apresentação, a introdução e o extenso aparelho de notas para
percebermos imediatamente que esta Bíblia é obra de um tradutor e de um
estudioso que trata o texto sagrado como tratou os textos profanos.
Falando-nos sobre isso, ele esclarece: “Não há nada de ofensivo para
católicos na minha tradução da Bíblia, mas há uma clara linha não
confessional que assumi de forma consciente. Não me deixei condicionar
por nada daquilo que são as convenções aceites na tradução do Novo
Testamento, quer católicas, quer protestantes. Ative-me apenas à
materialidade linguística do texto. Não disfarcei as frases incómodas,
não limei as arestas, não escondi realidades inconvenientes.”
“Na minha tradução lê-se ‘escravos’ e não ‘servos’ ou ‘criados’; também
não disfarcei as passagens misóginas e homofóbicas de Paulo. Mas, por
outro lado, as traduções existentes são desnecessariamente
androcêntricas, sobretudo em passagens em que a palavra ‘homens’
significa, na realidade, ‘pessoas’. Acho que a mais-valia da minha
tradução é justamente o facto de estar fora do catolicismo, mas não
contra o catolicismo.” Demos um exemplo eloquente: S. Jerónimo, autor da
tradução latina da Bíblia que se tornaria a Vulgata aprovada pela
Igreja, traduziu com a palavra “
peccatum” uma das palavras mais
comuns e importantes da liturgia, uma palavra grega que significa
“erro”. E é assim que Frederico Lourenço a traduz muitas vezes (não de
maneira sistemática, por razões que ele explica na Introdução). “Erro”,
em vez de “pecado”, não é certamente assimilável à liturgia da Igreja
Católica
Esta tradução, explica, “é um trabalho de rigor, de literalidade, de
captação do sentido original da forma mais próxima possível, tenta dar a
ler o grego tal como ele é”. Mas ela tem um efeito já bem visível nos
primeiros actos públicos da sua recepção, na medida em que nos obriga a
fazer perguntas e a pedir esclarecimentos sobre aspectos que quase nunca
emergem na transmissão corrente do texto bíblico. A primeira pergunta
que o público leigo fez foi esta: porquê a tradução de uma Bíblia
integralmente grega? Afinal, em grego não foram escritos apenas os
livros do Novo Testamento e uns poucos livros – sete, ao todo – do
Antigo Testamento? Tudo o resto, que é muito, não foi escrito em
hebraico? Porquê fazer a tradução de uma tradução, isto é, a tradução da
tradução grega dos originais hebraicos? Para responder a esta pergunta é
preciso contar a história da Bíblia Grega, tal como ela nasceu no
Egipto, na cidade de Alexandria, no século III a.C.
Essa história (que Frederico Lourenço narra na Apresentação) foi
conhecida através de uma carta que data de cerca do ano 100 a.C.,
enviada por um tal Aristeas ao seu irmão Filócrates – carta que chegou
até nós graças às citações que dela foram feitas por, entre outros,
Fílon de Alexandria e Santo Agostinho. Por ela, ficou-se a saber que 72
sábios judeus – daí a denominação "Bíblia dos Setenta ou
Septuaginta")
foram convidados pelo rei Ptolemeu Filadelfo para traduzir em grego os
livros da Lei, ou Torah (ou seja, o Pentateuco, os cinco primeiros
livros). Essa tradução promovida pelo rei Ptolemeu respondia às
necessidades e exigências da comunidade judaica de Alexandria, que não
conhecia a língua hebraica. O que aconteceu em Alexandria é geralmente
considerado um facto extraordinário, porque mostra o encontro da cultura
helénica com o património do judaísmo. A fé bíblica e o pensamento
grego: este encontro evoca a mais ampla e profunda experiência da
cultura ocidental, indicada geralmente pelo nome de duas cidades, Atenas
e Jerusalém
A Bíblia Grega, para além dos livros do cânone hebraico, integra também
as obras deuterocanónicas e algumas que não fazem parte do cânone
católico. A Septuaginta não foi uma (a primeira, aliás) entre muitas
outras traduções da Bíblia, já que teve um papel importantíssimo para a
Igreja das origens, nos primeiros séculos do cristianismo. O Novo
Testamento usou esta tradução para as suas citações bíblicas e
transmitiu-a à posteridade. A Bíblia Grega era a Bíblia da Igreja
cristã. Até entrar em cena a Vulgata latina de S. Jerónimo, todas as
traduções do Antigo Testamento eram baseadas não na Bíblia hebraica, mas
na
Septuaginta, que Santo Agostinho considerou inspirada (a
inspiração é um conceito teológico que se refere às obras dos homens –
neste caso, as Escrituras – que receberam uma supervisão especial do
Espírito Santo.
O sagrado e o profano
Jerónimo introduziu o conceito de
hebraica veritas,
a verdade hebraica, que significou um programa de correcção dos textos
latinos correntes (e sujeitos a traduções adulteradas) com base no texto
hebraico.
Agostinho, pelo contrário (e este foi um motivo da importante
discussão que teve com Jerónimo), defendia o texto grego. A polémica
questão da helenização da Bíblia, que tem o seu motivo mais forte e
inaugural na Bíblia dos Setenta, atravessa os séculos e chega até nós.
Em França, Henri Meschonnic traduziu alguns livros da Bíblia com o
explícito propósito de “des-helenizar” a Bíblia. Para ele, a versão
grega dos Setenta não é concebível como um texto judaico, escrito por
judeus e para judeus inseridos num meio judeu. No fundo, ele não aceita o
grego como língua bíblica e toma partido pelos textos hebraicos, os
textos massoréticos.
Referi brevemente o exemplo de Meshonnic
porque se trata de um tradutor (e de um importante teórico da tradução e
da literatura, já falecido) que deu origem a fortes polémicas,
mostrando como neste território bíblico se erguem por todo o lado campos
de batalha. Não se julgue, pois, que a tradução da Bíblia Grega por
Frederico Lourenço é um passeio – grandioso, é certo – por campos
pacíficos e harmoniosos.
Para já, podemos afirmar que ela tem um efeito muito importante e
altamente meritório: sendo feita por um universitário helenista e
tradutor da literatura grega, exibe um frutuoso campo de colaboração e
de coincidência entre os estudos clássicos e os estudos da Bíblia, entre
a filologia dos textos sagrados e a filologia dos textos profanos.
Deste modo – e todo o aparato crítico das notas, dos comentários e das
introduções confirmam e reforçam esta perspectiva – Frederico Lourenço
afasta aquela ideia muito catequista, muito apologética, muito subtraída
a qualquer
démarche crítica, de que a Bíblia é um supertexto,
ou um texto que está acima de todos os textos, para além da
materialidade textual e da condição linguística e literária, para além
de todas as investigações históricas, filológicas e arqueológicas.
Sabemos como esta ideia, que só quer ver no texto bíblico uma verdade
fixada como livro único e eterno que transcende a sua materialidade e a
história das suas leituras, das suas traduções e dos seus usos, foi
mesmo responsável por pesadas restrições à leitura da Bíblia e à sua
tradução em “línguas vulgares”.
Frederico
Lourenço não quis apagar o texto para restituir apenas o sentido, como
fizeram os tradutores da tradição cristã. Mas também não quis fazer o
oposto: uma tradução de escritor, uma “tradução poética”, como
Meschonnic, obcecado pelo ritmo e pelo significante. À questão que lhe
colocámos sobre o carácter literário da tradução da Bíblia respondeu:
“Não vejo a tradução de obras como a
Odisseia ou a Bíblia como
acto literário. Nunca tomo nenhuma opção só para o texto ficar bonito em
português. Às vezes o texto até fica estranho: isso vale tanto para as
minhas traduções de Homero como do Novo Testamento. Mas se as frases são
estranhas no original, a tradução tem de espelhar isso. Sou contra
passar todas as rugas a ferro.”
Outro efeito da tradução da Bíblia
por Frederico Lourenço é o de mostrar que as traduções sucessivas não
se anulam, mas acrescentam-se, ao longo de um processo que começou com a
Bíblia Grega; e que a Bíblia não existe senão pela história das suas
traduções, por mais que essa história surja obliterada pelos guardiães
de uma concepção da verdade bíblica como palavra refractária a toda a
tradução.
No Observador - https://mail.google.com/
Nota pessoal:
Aqui em casa, já temos um belíssimo exemplar do primeiro volume desta Bíblia - Os Evangelhos de Mateus, Marcos , Lucas e João - uma gentil oferta do nosso filho João.