segunda-feira, 24 de março de 2014

Todo filho é Pai da morte de seu Pai


TODO FILHO É PAI DA MORTE DE SEU PAI

Há uma quebra na história familiar onde as
idades se acumulam e se sobrepõem e a
ordem natural não tem sentido: é quando
o filho se torna pai de seu pai.

É quando o pai envelhece e começa a trotear
como se estivesse dentro de uma névoa.
Lento, devagar, impreciso.

É quando aquele pai que segurava com força
nossa mão já não tem como se levantar sozinho.

É quando aquele pai, que antigamente mandava
e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura
onde é a porta e onde é a janela- tudo é corredor,
tudo é longe.

É quando aquele pai, antes disposto e trabalhador,
fracassa ao tirar sua própria roupa e não lembrará
de seus remédios.

E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão
trocar de papel e aceitar que somos responsáveis
por aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende
de nossa vida para morrer em paz.

Todo filho é pai da morte de seu pai.

Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja
curiosamente nossa última gravidez. Nosso
último ensinamento. Fase para devolver os cuidados
que nos foram confiados ao longo das décadas, de
retribuir o amor com a amizade da escolta.

E assim como mudamos a casa para atender nossos
bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos,
vamos alterar a rotina dos móveis para criar os
nossos pais.

Uma das primeiras transformações acontece no banheiro.
Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra
no box do chuveiro.

A barra é emblemática, a barra é simbólica, a barra é
inaugurar um cotovelo das águas.
Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um
temporal para os pés idosos de nossos protetores.

Não podemos abandoná-los em nenhum momento,
inventaremos nossos braços nas paredes.

A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos
pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados,
sob a forma de corrimões.

Pois envelhecer é andar de mãos dadas com o objetos,
envelhecer é subir escada mesmo sem degraus.

Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos
cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvidas
e preocupação. Seremos arquitetos, decoradores,
engenheiros frustrados. Como não previmos que os
pais adoecem e precisariam da gente?

Nos arrependeremos dos sofás, das estátuas e do
acesso caracol, nos arrependeremos de cada
obstáculo e tapetes.

E feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte,
e triste do filho que aparece somente no enterro e
não de despede um pouco por dia.

Meu amigo José Klein acompanhou o pai até
seus derradeiros minutos.
No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama
para a maca, buscando repor os lençóis, quando o
Zé gritou de sua cadeira:

- Deixa que eu ajudo.
Reuniu suas forças e pegou pela primeira vez seu
pai no colo.

Colocou o rosto de seu pai contra o peito.
Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo
câncer: pequeno, enrugado, frágil, tremendo.

Ficou segurando um bom  tempo, um tempo
equivalente à sua infância, um tempo equivalente
à sua adolescência, um bom tempo, um tempo
interminável.

Embalou o pai de um lado para o outro.
Aninhou o pai.
Acalmou o pai.
E apenas dizia, sussurrado:
- Estou aqui, estou aqui, pai!

O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua
vida é que seu filho está ali!

(Fabrício Carpinejar).

Fonte da imagem:

http://www.google.com.br

Nota:

Encontrei este belo e importante texto no blogue da minha amiga Ana - 
http://anamgs.blogspot.pt/

Não resisti a trazê-lo para o partilhar aqui com os amigos

13 comentários:

Flavia disse...

que texto mais belo e lindo.
nao consigo te seguir porque esta dando um erro no google. mas vou salvar seu endereço
Flavia

www.adoteumfocinhocarente.blogspot.com
Rifas: http://adoteumfocinhocarenterifas.blogspot.com.br/
loja virtual: www.adote.iluria.com

Maria disse...

Muito verdade.
Eu já estou nos dois mundos. Revejo-me aí, como filha e como mãe. Obrigada!
Beijos.

Rosa disse...

Olá Viviana.

Que texto mais interessante,e que certo ele está.
Enquanto lia, fui mentalmente visualizando e com a cabeça acenando.
É que este "quadro" estou-o a passar com os meus pais.
Fico triste por vivênciar a fraqueza de forças, e o abandono das suas memórias...

Pensava que os nossos pais nunca envelheciam, e agora vejo como eles, para tudo, necessitam de mim.


Mas como diz o ditado "filho és pai serás" só temos de os mimar para sermos mimados nós também.

Viviana, tenha uma noite tranquila e quentinha, por aqui, de lume aceso vamos aproveitando o calorinho.
Abraços.

esperança disse...

Olá! Boa noite querida maninha,

Já li e reli, este importante e certo texto, que todos os filhos do mundo deviam ler…Sensibilizou-me…Pensei em mim, em nós os quatro que rapidamente estamos a chegar á tal meta em que precisamos que os nossos filhos, por quem fizemos tudo…Indo muitas vezes buscar força não sei aonde, sejam nossos pais. Ditosos os pais que têm filhos que não se importem de ser seus pais. Sim, porque bem sei que a grande maioria dos filhos, infelizmente, não procedem assim.

“E feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte,
e triste do filho que aparece somente no enterro e
não se despede um pouco por dia.”

Não posso deixar de dizer aqui, que os nossos queridos e saudosos pais tiveram até ao fim dos seus dias, o carinho de nós os quatro. Quanto á presença, o mais assíduo foi o nosso irmão que passou quase 30 anos da sua vida com a nossa querida mãe. E a manos assídua eu, mas mesmo assim, tomara que a minha filha seja para mi o que eu fui para os nossos queridos pais.

Tem, tenhamos todos, uma noite tranquila.

Viviana disse...

Olá, Flávia

Agradeço a sua visita e o seu comentário.

Volte sempre
Um abraço
Viviana

Viviana disse...

Querida mimi

Pois é...boa amiga...

Faz parte da nossa caminhada por aqui.

Um abraço
Viviana

Viviana disse...

Querida Rosa

Sim, minha boa amiga.

É tal qual...

Que o nosso Pai lhe conceda as forças para cumprir tamanha Missão.

Um forte abraço
Viviana

Viviana disse...

Querida maninha Esperança

Dizes bem...estamos a chegar lá...mais dia menos dia.

Confio que serei "mimada" por as"filhas/noras"...e por os meus "garotos e netos.

Descanso no Pai

Quanto aos nossos pais...estamos tranquilos.

Um beijo
Viviana

Orlando Arraz disse...

Estimada irmã em Cristo, saúde. Espero e desejo toda a sorte de bênçãos espirituais para a Sra. e todos os seus.Tocou-me profundamente este texto dos cuidados de um filho para com seu pai. É muito oportuno e atual. Peço sua permissão para publicá-lo em meu blog, para compartilhamento e bênçãos de nossos leitores do Brasil.
Um forte e carinhoso abraço.

Viviana disse...

Meu caro irmão Pastor Orlando Arraz

É belo, tocante, profundo... este texto.

Claro que o pode levar e publicar no seu espaço. Quantos mais a ele tiverem acesso melhor.

Desejo bençãos sem medida...do nosso Abba para si, para a sua família e para o seu ministério.
Um forte abraço
Viviana

Joseneide Barbosa disse...

Nossa que texto lindo querida amiga Viviana , faz tempo que não escrevo , mais fiquei as lágrimas , pois e dessa forma que sinto , e tão duro passar por isso , miha mãe que era tão forte hj so caminha amparada por mim , mais Deus e bom e tem me trazido consolo, comforto , peço para demostrar a cada dia meu carinho e minha imensa gratidão . Beijos querida

Viviana disse...

Querida Joseneide

Hoje á tardinha visitei o seu blogue, pois no meu blogueer, encontrei a apresentação do seu texto, o qual me despertou a atenção.
Li com muita atenção e senti tanto, mas tanto, as suas palavras "Sobre o Pôr-do-sol" da vida da sua mãezinha...que foi como se se tratasse da minha...que já descansa no Senhor há 12 anos.
Estava com pressa por isso não comentei...mas penso voltar lá para o fazer.

Agora, ao "encontrar" a Joseneide aqui, mais comovida fiquei.
Como eu a compreendo!
Custa tanto!
Orarei ao Pai por a sua mãezinha e por si. Ele, como diz no seu texto, ajudará e dará a força.

Abraço-a com carinho
Um abraço também para o seu esposo
Viviana

NTE - Marabá disse...

Que texto real. Feliz do homem que tem a possibilidade de conviver com seu pai durante a velhice, situações que poucos tem a chance de experimentar. Daí surge a pergunta, começamos a morrer após o nascimento? Viver e morrer são paradoxos humanos, explicados através da espiritualidade e da ciência.