terça-feira, 8 de janeiro de 2008

A viagem



Paquete Cabo de Buena Esperanza


No dia 30 de Maio da ano de 1944, em Buenos Aires, Argentina, eu, o pai, a mãe, a Esperança e o Serafim, ( Pastor Regueiras) embarcámos no Paquete Cabo de Buena Esperanza, a caminho de Portugal, de onde o pai saira para o Brasil, com 26 anos de idade no ano de 1927. O paquete Cabo de Buena Esperanza, era um transatlântico Espanhol, que habitualmente fazia as viagens entre a Espanha e Argentina.Atravessámos o Oceano Atlântico e chegámos ao Porto de Lisboa no dia 8 de Julho, depois de "andar-mos" no mar 3 9 dias.Eu tinha 4 anos, e dessa viagem guardo algumas recordações: por causa da ondulação, o navio balançava muito e eu ficava muito agoniada, mal disposta e com vontade de vomitar; tentava refugiar-me nalgum lugar, mas não havia onde, pois até no camarote , na cama, era a mesma coisa. Lembro-me tambem de a certa altura da viagem, ver golfinhos - creio que eram golfinhos - a saltar e a acompanhar o andamento do barco. Um dia, a minha mãe apanhou um grande susto porque o meu irmão João Serafim, que era bébézinho com dez meses e, como era muito lindo e muito simpático, andada de colo em colo, e a certa altura a senhora que o tinha ao colo desapareceu da vista da mãe, e a mãe preocupadíssima, começou a procurar o menino pelo navio. Eis senão quando, surge a tal senhora com ele , muito bem disposto, ao seu colo e a segurar nas suas pequeninas mãos... um saquinho de "caramêlos", que a senhora entretanto tinha ido buscar com ele ao camarote. Dali em diante, recordo-me que a mãe já não deixava o seu menino andar de colo em colo entre os passageiros.Uma vez em Lisboa, ficámos nesse dia numa pensão, da qual não me lembro mais nada alem de que tinha umas portas com vidros martelados... que achei lindos... e onde havia um cheiro específico que ainda hoje me lembro.Engraçado que ainda hoje, gosto de ver vidros martelados, e habitualmente lembro-me daqueles.Seguimos no dia seguinte, de comboio, que apanhámos em Santa Apolónia, para Braga e de lá para Vilela, a aldeia onde o meu pai nasceu.

E aí... começou uma imensa e tremenda aventura de vida, que nada tinha a ver com a vida que tínhamos em Oberá - Misiones... minha terra... meu berço.

A foto que encabeça este texto é o Paquete Cabo de Buena Esperanza onde viajei.

1 comentário:

Maria disse...

Gosto disso, a memória do passado vivido... é como folhear um álbum de fotografias.
Eu gosto muito disso. O passado, mesmo quando não tem histórias bonitas, não deve ser apagado.
Esta é uma história bonita.